Democracia Como Religião Civil

Com a capacidade de incorporar demandas (feminismo, ambientalismo, direitos das minorias etc.) e transformá-las em novas conquistas, a democracia se tornou o idioma oficial e o rito de legitimação dominante do nosso tempo. É o terreno sagrado onde as outras religiões políticas brigam e tentam ganhar território — desde que aceitem o jogo eleitoral e o discurso dos direitos.

 

Os modelos mais modernos da urna eletrônica brasileira que trazem como principal novidade visual o terminal do mesário reformulado com tela sensível ao toque (touchscreen) em vez das teclas físicas de borracha das versões antigas.

 

Não terás outros deuses além de mim

Essa sacralização da democracia não é nova. Já em 1932, G. K. Chesterton captou o fenômeno com uma frase lapidar: “Uma vez abolido Deus, o governo se torna Deus” (do original em inglês: “Once abolish the God, and the government becomes the God”). O contexto completo dessa reflexão levanta pontos profundos sobre a liberdade e a política:

•  Perda do referencial para criticar: Chesterton argumentava que a crença em Deus e em uma lei divina superior é o único fundamento real que permite aos cidadãos criticarem o próprio governante. Sem um padrão transcendental de justiça, o Estado passa a ditar o que é certo e o que é errado por conta própria.

•  Exemplo histórico: No mesmo trecho, ele usa o exemplo da União Soviética liderada por Lênin, apontando que, ao tentar banir a religião, o regime totalitário assumiu o papel de uma divindade ciumenta, exigindo obediência absoluta dos cidadãos sob o mandamento implícito de “Não terás outros deuses além de mim”.

•  Democracia e Direitos Humanos: Para Chesterton, a própria noção de igualdade de direitos entre os seres humanos perdia seu fundamento mais profundo quando se eliminava a origem divina. Sem esse referencial, a tendência era que os homens voltassem a se tratar como desiguais, abrindo espaço para a tirania do Estado.

 

Retrato de G. K. Chesterton, crítico literário e social, historiador, novelista, teólogo, apologista, debatedor e escritor inglês.

 

A imanentização do escaton

Chesterton aponta o problema da sacralização do governo quando se perde o transcendente, mas é Eric Voegelin que aprofunda isso historicamente e filosoficamente. O filósofo político, de origem alemã e norte-americana, adverte que as ideologias modernas (e, por extensão, certas formas de sacralização da democracia) funcionam como religiões políticas e como “imanentização do escaton”.

Imanentizar o escaton significa tentar realizar, aqui e agora, por meio da política, da revolução ou de um projeto histórico, aquilo que a tradição religiosa situava no além: a plenitude, a perfeição, a eliminação definitiva do mal, o paraíso na terra.

 

Retrato de Eric Voegelin, filósofo político alemão e norte-americano.

 

O Gnosticismo Moderno

Por que Voegelin critica isso?

Para ele, essa tentativa é a essência do que chamou de gnosticismo moderno. As ideologias totalitárias e, de forma mais difusa, certas utopias progressistas e democráticas prometem:

•  Criar o homem novo.

•  Eliminar definitivamente a injustiça, o sofrimento e a alienação.

•  Trazer a “salvação” por meio da ação política.

Elas transferem a esperança escatológica (do fim dos tempos) para dentro da história. O problema, segundo Voegelin, é que isso:

1.  Nega a condição humana real (a tensão do metaxy, o “estar-no-meio” entre a imperfeição humana e a aspiração à perfeição).

2.  Justifica qualquer meio (violência, repressão, engenharia social) em nome do fim absoluto.

3.  Transforma a política em religião substituta — uma “religião política”.

A frase famosa resumida por Voegelin (e popularizada depois) é:

“Don’t immanentize the eschaton” — “Não imanentice o escaton”.

Em outras palavras: não tente transformar a política na realização do Reino de Deus na terra. Quando se faz isso, o resultado costuma ser o oposto: desordem, tirania e desumanização.

É exatamente esse movimento que ele viu no comunismo, no nazismo e, de forma mais difusa, em várias ideologias modernas que prometem a redenção total por meio da história.

 

Como se pareceria uma tentativa de tentar estabelecer o céu na terra por Patrica Coelho Red.

 

A abertura da consciência

Aceitar que aqui não é o lugar para essa realização não significa resignação passiva. Significa, para Voegelin, manter a abertura da consciência: viver a tensão sem tentar resolvê-la de forma definitiva, cuidar da ordem possível (na alma e na sociedade) sem pretender a ordem absoluta. É uma postura mais sóbria, mais realista e, paradoxalmente, mais humana. Essa sobriedade é especialmente necessária quando a própria democracia passa a ser tratada como o caminho da redenção histórica.

 
Patricia Coelho

Patricia Coelho é uma designer e curadora que cria conteúdo em categorias como arquitetura, design, interiores, decoração, paisagismo, cultura, estilo de vida, arte, fotografia, tecnologia e inovações, entre outras coisas.

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