Playlist Noturna: de Chico Buarque a Raimundo Fagner
Nesta segunda playlist noturna, compartilho as músicas que tocaram na varanda do sítio ontem à noite: de Chico Buarque a Raimundo Fagner, passando por Belchior, Edu Lobo e Tom Jobim.
Um novo passeio pela MPB com histórias fascinantes, letras poéticas e melodias que convidam ao devaneio antes de dormir e à reflexão ao acordar. Se você acompanhou a primeira lista (de Caetano Veloso a Gonzaguinha), vai perceber que o repertório continua variado e cheio de surpresas — exatamente como as noites por aqui.
Uma colagem das capas dos álbuns de, respectivamente: Belchior, Edu Lobo e Tom Jobim, Chico Buarque e Raimundo Fagner.
A playlist de hoje nasceu diretamente dos acontecimentos do dia. Mais especificamente, do jogo entre Brasil e Marrocos que terminou empatado. Eu não assisti. Na verdade, nem sabia quem era Vini Jr. até poucas horas antes. Só ouvi os fogos de artifício explodindo lá fora e pensei: “Ah, o Brasil deve ter feito um gol”.
Horas depois, me peguei pensando em como eu costumava amar assistir aos jogos da Copa. Havia uma magia genuína naquela experiência. Hoje, sinto que isso se perdeu. O que antes era puro encantamento parece ter virado cartolagem, burocracia e algo que já não consigo separar do que o futebol se tornou.
Foi por isso que a primeira música que escolhi chegou na hora certa.
Capa do CD Duplo “Carioca - Ao Vivo” de Chico Buarque, 2007.
O Que Eu Ouvi?
“O Futebol” de Chico Buarque, 1989
A música "O Futebol", composta e interpretada por Chico Buarque, foi lançada originalmente no álbum homônimo, “Chico Buarque”, em 1989. A canção é uma homenagem poética a grandes ídolos do esporte como Pelé, Garrincha (Mané), Didi e Pagão. Foi desses grandes atletas que me lembrei, por isso quis ouvir a música.
Todo mundo sabe que Chico Buarque ama futebol. Aos 15 anos de idade, ele batizou seu time de botão de Polytheama (do grego “muitos espetáculos”). Nos anos 1970, já famoso, ele ganhou da Universal, como presente pela renovação de contrato com a gravadora, um campinho de futebol no Recreio dos Bandeirantes. O local se tornou o “Centro Recreativo Vinícius de Moraes”, a casa do Polytheama.
Ele mesmo fala sobre seu grande amor:
“Mas eu queria mesmo ser jogador. Cheguei a tentar fazer um teste no Juventus lá em São Paulo. Fui à Rua Javari, levei chuteira, fiquei na arquibancada horas e horas e não me chamaram. Acho que o physique du rôle não convenceu o técnico. Passou o tempo todo e ele mandou eu voltar outro dia. Eu não voltei. Não cheguei a colocar à prova o meu talento.”
Ele também deixou o futebol amador de lado algumas vezes. A primeira, quando ingressou no curso de Arquitetura da USP (que logo abandonou) e depois quando sua carreira musical decolou com o sucesso de “A Banda”, vencedora do “II Festival de Música Popular Brasileira”, promovido pela TV Record em 1966.
Chico chegou a jogar por um tempo durante seu autoexílio na Itália. De 1969 a 1970, ele atuou no Mentana, um time que disputava o Campeonato Italiano de Diletantes. Há muitos anos, o artista carioca radicou-se na Île Saint-Louis, uma ilha natural no meio do Rio Sena. Quando está no Brasil, porém, o compositor ainda joga no lendário campinho do Recreio dos Bandeirantes que no passado recebeu nomes como Pelé e Bob Marley.
A versão da música “O Futebol” que escutei ontem, faz parte do projeto “Carioca - Ao Vivo”, lançado pela gravadora Biscoito Fino, gravado em 2007. Os shows que originaram o registro em CD duplo e DVD ocorreram em fevereiro daquele ano, na casa de espetáculos Canecão, no Rio de Janeiro.
Capa do disco de vinil LP “Belchior” de Belchior, 1974.
“Na Hora do Almoço” de Belchior, 1970
A canção “Na Hora do Almoço” foi composta por Belchior no início dos anos 1970, mas só se tornou conhecida pelo Brasil inteiro no dia 8 agosto de 1971. Nessa data, o cantor e compositor cearense venceu o “IV Festival Universitário de Música Brasileira”, promovido pela TV Tupi do Rio de Janeiro, com essa mesma música.
A gravação mais conhecida, porém, foi lançada no álbum “Belchior”, de 1974. No mesmo ano, o cantor lançou também o revolucionário clipe da música, o primeiro de sua carreira. Na minha estrofe favorita, Belchior nos adverte:
“Deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois, se não, chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta, moço, sem ter visto a vida.”
Quando Raimundo Fagner gravou “Canteiros” em 1973, ele usou esse exato trecho do amigo e conterrâneo como música incidental. O resultado foi uma mistura genialmente inusitada que reuniu Cecília Meireles e Belchior no mesmo bolo.
Como eu conheci “Canteiros” antes de conhecer “Na Hora do Almoço”, por muitos anos acreditei que a letra fosse de Raimundo Fagner. Eu também não sabia na época que a família de Cecília Meireles tinha entrado com uma ação judicial contra Raimundo Fagner, como explico um pouquinho mais adiante.
Capa do disco de vinil LP “Edu & Tom, Tom & Edu” de Edu Lobo e Tom Jobim, 1981.
“Luiza” de Tom Jobim (interpretada por Edu Lobo), 1981
Um dos meus clássicos favoritos de todos os tempos, a canção “Luiza” foi lançada no álbum colaborativo "Edu & Tom, Tom & Edu”, em 1981.
O registro do encontro foi feito nos antigos estúdios da gravadora Philips (PolyGram) no Rio de Janeiro, onde o disco inteiro foi concebido e gravado. E foi justamente essa gravação que assisti, com filmagens intimistas feitas pelo cineasta Roberto de Oliveira. Anos mais tarde, esse material histórico de bastidores foi reunido e lançado oficialmente no aclamado documentário e DVD chamado “Águas de Março”.
“Luiza” foi feita por Tom Jobim sob encomenda em 1981, composta especificamente para ser o tema de abertura da novela “Brilhante”, da TV Globo. A canção carrega algumas histórias curiosas sobre a sua criação e inspiração.
Tom Jobim compôs a música tendo Vera Fischer como sua musa inspiradora. A atriz, que interpretou a protagonista Luiza na novela, inspirou o maestro com sua beleza estonteante e seus longos cabelos loiros. Mais notoriamente, Tom incluiu o famoso verso “um raio de sol nos teus cabelos” pensando nela. No entanto, a produção da novela pediu que Vera Fischer cortasse o cabelo bem curtinho e o escurecesse, mudando totalmente seu visual logo antes da estreia da novela.
Segundo relatos do diretor de televisão Boni, a música foi finalizada às pressas em uma viagem para Angra dos Reis, pois o prazo para entregar a abertura da novela estava estourado. Tom Jobim se sentou de frente para a praia à noite, viu o reflexo da lua e arrematou essa obra prima.
O maestro e pianista Marcelo Caldi ressalta que o desenho melódico inicial de “Luiza” foi sutilmente inspirado na introdução da clássica “Mazurca Op. 24 nº 4” do compositor polonês Frédéric Chopin.
Capa do disco de vinil LP “Eu Canto” de Raimundo Fagner, 1974.
“Revelação” de Raimundo Fagner, 1973
A música "Revelação" foi composta pelos irmãos piauienses Clodo Ferreira e Clésio Ferreira, mas antes de chegar à versão que conhecemos hoje (“Um dia vestido de saudade viva...”), a melodia foi testada primeiro com o poema “Memória”, de Carlos Drummond de Andrade. No entanto, a letra precisou ser inteiramente reescrita por questões de adaptação. Ao ouvir a versão final de Clodo e Clésio, Raimundo Fagner brincou dizendo que os autores ficariam de cabelos brancos e a música ainda continuaria tocando nas rádios do Brasil.
Sempre às voltas com poetas e poesias musicadas, Raimundo Fagner teve um severo desentendimento jurídico em torno da música que contém a estrofe de Belchior, “Canteiros” (do disco “Manera Fru Fru, Manera”, de 1973), num dos episódios de direitos autorais mais emblemáticos da história da MPB.
O cantor musicou os versos do poema “A Marcha”, de Cecília Meireles, mas não pediu autorização prévia aos herdeiros da escritora e o álbum foi lançado sem os devidos créditos na contracapa. As filhas de Cecília Meireles entraram com uma ação judicial severa contra o cantor e a gravadora Philips. O impacto foi imediato e a Justiça determinou o recolhimento das lojas e a proibição de circulação do álbum de estreia de Fagner.
Por conta do imbróglio jurídico, a música original “Canteiros” passou quase 30 anos “amordaçada”, sem poder ser relançada ou tocada oficialmente em transmissões de massa. A disputa só teve um desfecho na década de 2000, quando Fagner e os herdeiros finalmente alcançaram um acordo financeiro e de créditos, permitindo que a obra voltasse a ser comercializada legalmente.
Curiosamente, no próprio álbum “Eu Canto'“, de 1978, Raimundo Fagner repetiu o hábito de usar poemas e incluiu a faixa “Motivo”, utilizando novamente versos de Cecília Meireles.
Ouça a Playlist Completa
Chico Buarque - O Futebol (do álbum “Carioca - Ao Vivo”, 2007)
Belchior - Na Hora do Almoço (do álbum “Belchior”, 1974)
Edu Lobo & Tom Jobim - Luiza (do álbum “Edu & Tom, Rom & Edu”, 1981)
Raimundo Fagner - Revelação (do álbum “Eu Canto”, 1974)
Essa é a Playlist completa no meu canal do YouTube para você ouvir comigo e compartilhar com quem ama música da melhor qualidade, que atravessa gerações sem perder o significado.
Eu continuo adicionando todas as músicas que tocam na varanda, em ordem cronológica, nesse mesmo link. Assim estaremos sempre na mesma sintonia.
O que achou dessa seleção? Tem alguma música ou playlist noturna que você ama e gostaria de compartilhar? Deixe seu comentário aqui embaixo — adoro descobrir novas canções com vocês.
Vamos ouvir juntos, refletir e, quem sabe, cantar baixinho antes de dormir?
Bora lá! 🌙